Rua da Fé

quinta-feira, novembro 02, 2006

Quadratura do círculo - A política à solta

O mais interessante do debate foi a visão minimalista de Pacheco Pereira (PP) sobre a questão.
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PP começou por juntar o plano ético ao religioso (como se ambos não se distinguissem), para depois enunciar que, nestas matérias, devemos seguir a tradição liberal saída da revolução francesa (palavras suas), ou seja, a esfera das decisões políticas e jurídicas deve ser separada dos critérios éticos. Assim, com esta desenvoltura, PP atira para fora de jogo o ético, resolvendo de uma penada dois problemas.

Claro está, livre como um pássaro, a argumentação ganha outra consistência, e a ordem política pode então dedicar-se a resolver os problemas práticos da vida em sociedade. Mas esta justificação tem tanto de esperteza como de perigosidade. PP sabe muito bem quais são as raizes filosóficas da Revolução francesa e as consequências políticas e sociais resultantes do racionalismo exarcebado. Ao reclamar para si esta tradição, PP assume não só uma atitude integralmente relativista face ao aborto, como sanciona toda a tradição dos super-homens, dos amanhâs que cantam, dos determinismos e dos totalitarismos de toda a espécie e feitio.
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PP perde também o direito de criticar o que quer que seja. Sem ética, onde está a decisão livre, onde estão os freios da sociedade, sobre que parâmetros se guia o jurídico, quais os limites da decisão política?
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Se a raízes liberais de PP são estas, assentes na crença de um homem criador intencional das boas instituições sociais, as minhas são bem outras, vêm de filósofos e pensadores como John Locke, Bernard Mandeville, David Hume, Josiah Tucker, Adam Ferguson, Adam Smith, Edmund Burke, Alexis de Tocqueville e Lord Acton.